A International Meal Company, mais conhecida como IMC, foi fundada em 2006 pelo fundo de investimentos Advent, iniciando essa trajetória com a aquisição do Grupo La Mansión no México. Em 2007, a empresa entrou no mercado brasileiro com a aquisição da RA Catering e não parou mais. Em seguida veio a aquisição do Grupo Viena, Frango Assado, até que, em 2011, fez o seu IPO. A IMC continuou expandindo suas operações em 2013 ao se transformar no operador exclusivo do Olive Garden e Red Lobster no Brasil. Já em 2014, a companhia começou a olhar para o mercado norte americano através da aquisição da Margaritaville.

Com esse histórico de rápido crescimento e sucessivas aquisições, a companhia teve dificuldades para gerir a operação de tantas marcas distintas com tantas características geográficas específicas. Em 2015, a operação mexicana foi vendida e a própria rede desenvolvida passou a sentir na pele o que o crescimento desenfreado e a falta de um controle rígido operacional podem fazer. A empresa iniciou um processo de venda de alguns ativos até que, em 2019, as operações do KFC e Pizza Hut (Yum! Brands) chegaram na companhia, mostrando o que estaria por vir.

Após navegar em diversas operações e entender o comportamento de consumo em cada uma delas, a empresa percebeu que sua estrutura era tão grande e o foco tão disperso que era praticamente impossível gerir todas as marcas com excelência. Foi aí que a companhia resolveu mudar completamente e focar nos ativos que eram promissores, além de estruturar um plano de melhoria para os franqueados. Infelizmente, em 2020, veio a pandemia e o momento mais desafiador na história para o setor. Grandes marcas fecharam suas operações, marcas tradicionais como o Galeto’s simplesmente desistiram de operar em shoppings, uma avalanche de operações inaugurando delivery´s sem planejamento, queima de caixa, falta de crédito e de perspectiva. Enfim, nem o mais criativo teste de estresse de mercado poderia desenhar um cenário tão desafiador para o setor. Por incrível que pareça, foi exatamente isso que ajudou a IMC.

Mar calmo não faz bom marinheiro, e foi nessa jornada que Alexandre Santoro assumiu o timão. Santoro era o presidente da rede Popeye´s no Brasil, uma cia do Grupo Burger King, controlado pelo 3G Capital (Lemann, Telles e Sicupira). Se tem um grupo que é gestão na veia, esse grupo é o 3G. Ao encontrar a empresa em meio a uma disputa judicial com a Yum! Brands pela renovação do KFC (não cumprimento de meta de expansão), a rápida jogada para renovar o contrato da Pizza Hut abriu também espaço para desenvolver um plano agressivo para o que realmente importava ali dentro: KFC, Pizza Hut e Frango Assado.

Para se ter uma ideia, hoje a IMC conta com as seguintes operações: KFC, Pizza Hut, Frango Assado, Olive Garden, Batata Inglesa, Espresso Mineiro, J&C Delícias, Margaritaville, Sports Drinks’n’Snacks, Black Coffee, Eat & Co., LandShark Bar&Grill e o Viena. Em meio ao caos, em todos os sentidos, Santoro iniciou o processo para fazer a lição de casa da maneira mais assertiva, resolvendo um problema por vez.

Primeiro, ajustou a Pizza Hut e acelerou o modelo small box, que permite a expansão para cidades menores. Um modelo enxuto operacionalmente (reduz até 4 funcionários por loja em média), com custo de ocupação menor, menor custo de utilidades, além de estar mais bem posicionada para o delivery, uma vez que pode atender um raio de 5km sem canibalizar outra operação. O setor sofreu com a inflação, vendo os preços da farinha de trigo, tomate e queijo subirem, apertando as margens para os menores e ajudando as grandes operações que conseguem negociar com fornecedores por conta da escala. Este é um ponto que a pandemia ajudou a Companhia a navegar em um mar com menos concorrentes, junto de uma marca forte. Acabou ganhando share de delivery e a rede continua crescendo mesmo na pandemia. O Grupo BFFC, que é o controlodor do Bob´s, é o maior franqueado Pizza Hut no Brasil. A empresa consegue crescer via franqueados sem queimar caixa, o que é excelente para o período. O faturamento médio da rede é de R$220.000,00, excelente para uma pizzaria.

Já o KFC ganhou o gosto do brasileiro, tornando-se a maior operação de frango frito do Brasil em delivery atualmente, mais um setor que foi prejudicado na pandemia e ajudou a marca a ganhar share. Além de estar bem posicionada no mercado, os concorrentes não conseguem a mesma performance por m2 que ela, o que ajuda a dar uma vantagem competitiva enorme quando falamos de operações de shoppings. Outro ponto interessante é a sinergia que a marca tem com o Frango Assado e o ganho de escala que se pode ter no futuro.

Deve-se monitorar também a questão da renovação do contrato com a Yum! Brands. A IMC ainda mantém o direito de explorar a marca no Brasil até que seja definido um tribunal arbitral para julgar o caso. Porém, com o trabalho e foco que a IMC demonstrou nesse último semestre, é bem provável que o desfecho seja positivo, ainda mais com a renovação do próprio contrato da Pizza Hut. A média de faturamento da rede é em torno de R$350.000,00 o que a coloca entre uma das redes de franquia mais atrativas no mercado, com a performance e o trabalho desenvolvido no delivery a tendência é que essa venda permaneça mesmo após a covid.

A operação do Frango Assado sofreu ainda mais com as restrições já que não possui o delivery. Em compensação, o que muitos não colocam na conta é que as operações de postos de gasolina também estão dentro do negócio. No passado, essa miopia poderia fazer com que as margens da operação fossem baixas, porém, na pandemia, justamente as operações de postos de gasolina é que ajudaram a girar caixa. A companhia atuou forte em um modelo de redução de custos, garantindo um equilíbrio entre a demanda e a operação. A empresa deve inaugurar mais uma operação ainda nesse ano, além de ter feito parcerias com a rede de postos de estrada Monte Carlo para expandir as operações do Frango Assado, e uma parceria com a Raízen, dos postos Shell. A ideia é avançar no sul e sudeste, brigando cada vez mais com o GRAAL.

Essa expansão, porém, deve ser retomada de maneira mais forte a partir de 2022 já que a companhia adotou uma prática para proteção de caixa com a chegada de Santoro. É uma operação que se beneficia da retomada da economia e de um movimento que foi evidente nesse verão nos EUA. A tendência do crescimento do turismo interno também deve ser vista no Brasil. Seja pelo câmbio, por restrições, custos, além do próprio clima no final do ano, período em que devemos ter a população toda vacinada. As operações da IMC nos EUA devem comprovar esse movimento e demonstrar resultados superiores ao mesmo período de 2019. Esse será um bom indicador do que pode acontecer por aqui no segundo semestre.

Se olharmos bem o cenário, a empresa viu seus concorrentes sofrerem muito mais e alguns acabaram sumindo do mercado. Mesmo assim, a empresa conseguiu crescer e ganhar share via delivery, e abriu novas operações com as marcas KFC e Pizza Hut. A tendência é de que a companhia transforme as operações do Viena em KFC ou Pizza Hut, venda alguns ativos, enxugue a estrutura e foque no ganho de escala das marcas chave KFC, Frango Assado e Pizza Hut.

Aqui, a IMC tem uma grande jóia no mercado, que é a sua Central de Distribuição. Não é por acaso que Alexandre Santoro foi escolhido para o cargo. Além de toda a expertise em gestão e no setor, Santoro é um especialista em logística, que é a alma do negócio de alimentação. Seja para ter melhores margens, seja para ter um desenho mais eficiente da operação. Se ligarmos os pontos, podemos ver sinergias enormes entre o Centro de Distribuição da IMC, as operações de frango da rede, ganho de escala e até o desenvolvimento de uma rede de distribuição para toda a cadeia de Fast Food no Brasil.

Hoje, a rede Vivenda do Camarão desenvolve esse trabalho. Eles são um dos players mais ativos em comercialização de camarões e frutos do mar para o setor, por exemplo. Um dos motivos que demonstram a importância do Centro de Distribuição no negócio, é o fato da empresa estar desenvolvendo estudos para a implantação do disco de pizza aberto congelado nas lojas. Em um primeiro momento, pode parecer que a empresa está deixando a qualidade de lado para o produto chegar congelado, porém, além de garantir padrão em toda a rede, redução de custos operacionais (menos funcionários), menor capex (exclui a batedeira da operação, além de 12m2, que representa uma economia enorme quando falamos de aluguel), hoje, o próprio processo interno de produção da massa da pizza nas lojas, passa pelo resfriamento em câmara fria na loja. Esse tipo de inteligência aplicada ao negócio e escala pode fazer com que a IMC tenha a melhor margem e o melhor CMV do setor de atuação.

Vale monitorar de perto o que a companhia vem desenvolvendo. A sinergia com o 3G capital. O papel estratégico do Centro de Ditribuição. A chegada de Alexandre Santoro. Se ligarmos os pontos, podemos ver que a empresa está finalmente iniciando seu processo de turnaround.

Recentemente, foi anunciada a união de algumas redes como Giraffas, Outback, Bob´s, Rei do Mate, Pizza Hut, em uma joint venture, que teve a aprovação do CADE nesta última quinta-feira, 15/07. Esse é um passo gigante para o setor, que hoje se vê dependente de três plataformas. Além de não contar com os dados de consumo e dados que as plataformas não compartilham com os restaurantes, a própria gestão dessa cadeia é dificultada pelos custos altíssimos que muitas vezes inviabilizam o negócio.

Com este passo, em parceria com a 4ALL – segundo Gustavo Schifino, sócio da 4ALL -, a economia para os restaurantes pode chegar em mais de 20%, o que ajuda a melhorar as margens das operações e até a desenvolver produtos mais agressivos para ganhar ainda mais share de mercado e evitar o crescimento de pequenos players.

Em relação aos múltiplos, a companhia possui uma base distorcida pela covid e pela segunda onda, que fechou estabelecimentos novamente em março de 2021. Mesmo assim, a dívida da empresa está muito bem controlada (Div Líquida/EBITDA -0,41 (0,63 média 3 anos).

O EV/EBITDA (-2,85) negativo reflete a conjuntura macro que o setor passou e ainda passa, com restrições de horários e praça de alimentação. Isso também se reflete no P/L negativo. Porém, o foco da companhia em KFC (Franquias e Lojas Próprias), Pizza Hut (Franquias) e Frango Assado (Lojas Próprias), junto de uma política de desinvestimentos em ativos que não estejam alinhados com os objetivos da empresa (provável que a operação dos EUA, Olive Garden, até mesmo Viena e Batata Inglesa), tornam a companhia muito mais competitiva, enxuta e pronta para crescer, dominando o setor e transformando-se em uma das maiores operadoras de frango dentro da curva ABC do Brasil.

O movimento das estradas e aeroportos também contribuíram para prejudicar o faturamento da IMC, que conta com operações em aeroportos e a RA Catering. Com todo esse cenário, o principal indicador a ser monitorado na empresa era a dívida. Operacionalmente, a companhia demonstrou gestão impecável na redução de custos.

Com o movimento nas estradas crescendo, vacinação acelerando, fluxo nos shoppings cada vez maior (mês a mês), número menor de concorrentes na praça, reabertura 100% da praça de alimentação nos shoppings, além da demanda de consumo reprimida e crescimento do delivery, o futuro da IMC é muito promissor e vale a pena monitorar cada passo da companhia, que possui algumas opcionalidades bem interessantes que podem destravar muito valor para seus acionistas.


Sobre o autor: Anderson (Andy) L. Kawamoto é formado em Gastronomia pelo Centro Universitário Senac SP, possui mais de 15 anos de experiência em negócios de alimentação, que passam pelo Hotel Transamérica SP, BeFresh, além da implantação e gestão de mais de 30 restaurantes em Hotéis e Flats em SP (Riema, Mercure, Tryp, entre outras). Foi responsável pelo turnaround da rede de franquias Mei Mei Culinária Asiática em São Paulo. Também é formado em Marketing, atuou em startups de tecnologia no Brasil como a BaseKit e a Seed Digital, que desenvolve captação e gestão de big data aplicada ao comportamento de consumo.

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6 COMENTÁRIOS

  1. Excelente comentário, gostaria de ter contato/email do CEO Alexandre Santoro , para que eu pudessse comentar uma idéia de agregar mais um produto totalmente rentável nos restaurantes em geral. quem sabe ele leia este artigo.

  2. IMC -MEAL-3, excelente matéria, com boas perspectivas de crescimento, já tenho visitado alguns shoppings
    e o movimento das lojas está aumentando com a liberação dos horários.
    Uma boa para investir a longo prazo, uma excelente small cap .
    Analistas projetam alta para o papel.

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