Na sua primeira teleconferência como CEO, Fábio Madder adotou um tom direto: 2026 não deve ser um ano simples para o setor de turismo. Ainda assim, ele deixou claro que a CVC Corp (CVCB3) acredita estar preparada para navegar esse cenário mais turbulento.
A empresa começou o ano com uma combinação de bons resultados recentes e cautela em relação ao que vem pela frente. O balanço de 2025 foi forte — com o maior Ebitda desde 2019 —, mas o ambiente externo inspira atenção. Entre os principais pontos de preocupação estão a instabilidade geopolítica no Oriente Médio, a pressão do preço do combustível nas passagens aéreas e um calendário carregado, com Copa do Mundo e eleições.
“O ano começa desafiador, não só para a CVC, mas para toda a indústria”, afirmou Madder, que assumiu o cargo em janeiro após a saída de Fábio Godinho. Com cerca de 15 anos de experiência na companhia, em diferentes momentos, ele destacou que a empresa desenvolveu ao longo do tempo uma capacidade de adaptação estratégica. Segundo ele, quando um destino perde atratividade — por exemplo, por conta de conflitos —, a CVC consegue redirecionar rapidamente o cliente para outras opções. “A gente consegue ajustar a rota e manter a venda, com apoio próximo ao cliente”, resumiu.
O peso do “fígital” e dos produtos exclusivos
Para lidar com a alta recente nas passagens aéreas — que chegaram a subir cerca de 17% em março na comparação anual —, a estratégia passa por reforçar o portfólio próprio. Produtos exclusivos, como bloqueios e fretamentos, já representam uma fatia relevante das vendas (20,3% no Brasil no 4T25) e devem ganhar ainda mais espaço para garantir competitividade de preço.
Outro pilar continua sendo o modelo “fígital”, que combina o alcance dos canais digitais com a capilaridade e confiança das lojas físicas. A ideia é simples: usar a tecnologia para atrair o cliente sem abrir mão do fechamento assistido por um consultor.
Nesse sentido, a companhia também se prepara para entrar com mais força nos metabuscadores. Segundo Madder, a equipe liderada por Bob Rossato está trabalhando para posicionar a CVC em plataformas como Google Flights, Skyscanner e Kayak dentro dos próximos 45 dias. O objetivo é atrair o cliente que começa a busca por preço na internet, mas oferecer algo que os concorrentes digitais puros não têm: suporte humano ao longo de toda a jornada. “Queremos estar onde o cliente está, mas mantendo o diferencial do atendimento”, disse o CEO.
Resultados dão fôlego para a estratégia
Se o cenário à frente exige cautela, os números recentes ajudam a dar confiança ao investidor. Em 2025, a CVC Corp reportou um Ebitda ajustado de R$ 459 milhões, com margem de 31,8%, além de lucro líquido ajustado de R$ 67 milhões — mais que o dobro do ano anterior.

A geração de caixa também foi destaque, atingindo R$ 412 milhões no ano. Com isso, a dívida líquida caiu para R$ 101,8 milhões, levando a alavancagem a apenas 0,2x o Ebitda ajustado. Para o CFO Felipe Gomes, esse nível de endividamento abre espaço para a empresa investir com mais tranquilidade, mantendo o foco em eficiência e disciplina financeira.
Tecnologia e mudança de cultura
Além das frentes comerciais e financeiras, a nova gestão quer acelerar o uso de tecnologia de ponta. Um dos destaques é o “CVC Flow”, plataforma interna de inteligência artificial que já reúne iniciativas em áreas como atendimento, finanças e pricing.
Mais do que implementar ferramentas, a ideia é avançar na transformação cultural, tornando a empresa cada vez mais orientada por dados (data-driven). Para isso, metas como redução da alavancagem e melhoria da experiência do cliente passaram a fazer parte do sistema de bônus dos colaboradores em toda a operação, incluindo Brasil e Argentina.
“No fim das contas, são as pessoas que fazem tudo acontecer”, concluiu Madder.
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