Omaha, 3 de maio de 2025 – Na reunião anual da Berkshire Hathaway, Warren Buffett confirmou que deixa o cargo de CEO no fim de 2025, com Greg Abel assumindo o leme. Nenhuma surpresa. Ele já vinha dando pistas claras, como na última carta aos acionistas: “At 94, it won’t be long before Greg Abel replaces me as CEO.” Com a sucessão no bolso e Abel, que está na Berkshire há muitos anos e já vinha sendo preparado para o cargo trabalhando lado a lado com Buffett, as mensagens que realmente carregam maior peso em Omaha foram outras – a economia americana, o futuro da Berkshire e como Buffett conduz suas análises para seleção de empresas. Investidores do mundo inteiro que lotaram a reunião ouviram com atenção ao que Buffett tem a dizer, em busca do toque do “Oráculo”.

Fonte: Foto do Evento anual da Berkshire em Omaha, 3 de maio de 2025

América: glórias do passado não garantem o futuro

Buffett mais uma vez reforçou sua tese da força e do excepcionalismo da economia Americana, reafirmando sua crença com uma frase que marca suas cartas e falas passadas: “Never bet against America”. Ele traçou a jornada do país, que, de uma sociedade agrária, se tornou a maior potência econômica da história, superando guerras, crises econômicas e a gestão de políticos ineptos. Essa trajetória de prosperidade, destacou, reflete a capacidade americana de se adaptar. O momento atual, na visão de Buffett, é o melhor já vivido, com avanços em qualidade de vida e tecnologia inimagináveis, e o futuro parece ainda muito mais promissor. Mas a glória do passado, ele alertou, não é garantia de um futuro brilhante – é preciso vigilância constante para evitar tropeços, um recado que ecoou entre os investidores, particularmente aqueles mais preocupados com o quadro fiscal Americano.

O déficit americano que hoje roda próximo de 7% do PIB é claramente insustentável (Buffett diz que esse número deveria ser de 3%). Buffett destacou que crises são inevitáveis, embora o seu timing seja quase sempre incerto, e lembrou o papel de Paul Volcker, que, nos anos 80, domou a inflação e evitou um colapso. O Department of Government Efficiency (DOGE), que busca cortar burocracia e gastos desenfreados, foi apontado como uma iniciativa essencial nesse sentido. Mas Buffett alertou para a resistência da máquina estatal, com interesses enraizados que dificultam reformas – Washington não está feliz. A lição de Buffett é clara: a continuação do  sucesso americano exige vigilância eterna sobre a também eterna tentação dos políticos de gastarem mais (qualquer semelhança não é mera coincidência).

Outro risco que demanda a atenção é o comércio global. Buffett criticou as tarifas impostas pelo governo Trump, vistas como uma ameaça à economia mundial (“trade war”). Cada país deveria focar no que faz melhor, criando trocas que beneficiem todos, defendeu. Um mundo onde os EUA buscam vitórias às custas de outros gera inveja e atritos, comprometendo a cooperação, alertou. Ele trouxe à tona uma ideia antiga, os “import certificates”, como uma forma de equilibrar o comércio sem barreiras drásticas, mas reconheceu que ela tem chances mínimas de ser adotada.

O Futuro da Berkshire: Caixa na mão, estratégia afiada

A Berkshire mantém mais de US$ 300 bilhões em caixa (considerando apenas a parcela que já subiu para a holding), um volume muito acima do “ideal”. Na reunião, Buffett reforçou que essa reserva é parte de uma velha estratégia oportunistica: oportunidades de investimento não surgem de forma ordenada e portanto estar preparado para quando elas surgirem é muito importante, o que muitas das vezes exige paciência. A Berkshire sempre lucrou segurando caixa para fechar negócios vantajosos  quando o mercado presenteia àqueles que estão preparados. Ele confia que isso se repetirá, mesmo sem ter nunca como prever quando isso se dará. A espera, contudo, não consiste em não fazer nada, muito pelo contrário: estar constantemente estudando e lendo é fundamental. Mas  Buffett é bastante franco: o tamanho da Berkshire, hoje um colosso de US$ 1,1 trilhão de ativos, limita retornos extraordinários futuros, um desafio que os acionistas devem estar bem cientes.

Paciência é o pilar da estratégia, mas ação rápida é crucial quando a oportunidade surge.

Para onde vai esse capital? Buffett apontou o Japão como um mercado promissor. A Berkshire está fortalecendo laços com empresas onde já investiu, estreitando relações de confiança que podem desembocar em novos investimentos futuros. Essas conexões podem inclusive levar a negócios em outros mercados junto com os japoneses. Nos EUA, o setor de energia elétrica foi citado também como uma grande oportunidade, com a demanda projetada para crescer muito nos próximos anos (obrigado, AI!). Mas Buffett condicionou qualquer movimento a melhorias regulatórias que tornem a proposição de risco-retorno mais atraente – e o setor vai precisar atrair capital. A Berkshire tem capital e expertise, mas só entra com condições mais atrativas.

Outro ponto relevante: Buffett não tem qualquer disposição em investir em países onde entenda que há risco de inflação se descontrolar. Parece que países como o Brasil, com histórico de descontrole fiscal e propensão a desvalorização de moeda, ficam fora do radar da Berkshire.

Chama também a atenção ausência de recompra de ações em 2025. Parece muito claro que Buffett não estaria atraído a pagar os atuais 1,8x o valor contábil (contra os 1,3x na média de dez anos das ações da Bershire).

Na turbulência recente do mercado com o tarifasso do Trump, Buffett não agiu usando seu caixa para comprar negócios ou ações. Ele considerou o evento absolutamente trivial. E relembra que A Berkshire já caiu mais de 50% três vezes na história – dessa vez não foi nem um arranhãozinho. Mas alerta que, nos próximos 20 anos, quedas muito piores virão. Investidores devem controlar as emoções, destacou. Quem não suporta nem correções moderadas, como a atual, talvez deva evitar a bolsa, uma lição prática para tempos voláteis.

Como Analisar Negócios: O jeito Buffett

Como de costume, Buffett deu pistas na reunião de como avalia empresas. Foi categórico ao afirmar que sempre começa pelos balanços patrimoniais. Ele gosta de olhar para o histórico de dez anos de balanços, onde problemas, como derivativos ou dívidas mal geridas, são mais difíceis de esconder do que no DRE. Buffett exemplifica que ele próprio se encarrega de revisar mensalmente (entre um gole e outro de Coca) os balanços de mais de 50 empresas que compõe a Berkshire. Ele também alertou para a importância de uma due diligence independente das empresas antes de tomar decisão de investimento. O mercado não entrega respostas prontas, e confiar em dicas alheias geralmente não leva a bons resultados, defendeu – o famoso “do your own homework”.

Antes de investir, ele também procura sempre entender os principais argumentos daqueles que não gostam da empresa (advogado do diabo). E só investem em empresas que julgam conseguir projetar com bom grau de confiança um desempenho favorável para os negócios nos 5 a 20 anos a frente. Outro macete revelado: perguntar ao management das empresas qual concorrente eles investiriam e por quê. Buffett conta que ao longo dos anos aprendeu muito com esses tipos de conversas e brinca que geralmente o management adora falar sobre os concorrentes.

O que fica

Buffett está deixando sua grande criação, construída com Charlie Munger – verdade seja dita – em um momento de ouro para a Berkshire (vide a ação no seu all-time-high). Décadas de trabalho disciplinado transformaram a empresa num ícone do capitalismo, admirado mundo afora: 40 mil pessoas lotando uma assembleia de acionistas não deixam mentir. Na reunião em Omaha, um capítulo histórico do capitalismo americano chegou ao fim. Agora, a Berkshire encara uma nova fase, onde a preservação de sua cultura, bem como a capacidade de Buffett e Munger de terem preparados bons sucessores serão postas à prova. Greg Abel no comando dá sinais promissores, mas a história está repleta de empresas que perdem o brilho sem seus fundadores. O futuro dirá.

Sobre o Autor: Artigo elaborado por Tito Ávila – LIS Capital

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