A Profarma e a D1000 fazem parte de um ecossistema farmacêutico que reúne, debaixo do mesmo guarda-chuva, a segunda maior distribuidora de medicamentos do Brasil e uma rede varejista com mais de 250 lojas.
A combinação entre distribuição e varejo raramente é trivial: envolve alinhamento de incentivos, tecnologia logística e disciplina financeira. No entanto, quando funciona, cria um círculo virtuoso difícil de replicar pelos concorrentes.
Posto isso, muitos investidores se perguntam se estamos diante de uma tese de valor com desconto ou de uma armadilha que só parece barata. Te conto a seguir!
De onde vieram
Fundada como distribuidora pura, a Profarma deu seu primeiro passo rumo ao varejo em 2013, comprando pequenos grupos de farmácias. Três anos depois, centralizou esses ativos na D1000; em 2020 veio o IPO da varejista, reduzindo a necessidade de capital próprio e deixando a Profarma com 67% de participação.
O arranjo separou as governanças, mas manteve as duas empresas ligadas por contratos de fornecimento, sistemas integrados de pedido e metas comerciais casadas.
A Profarma continua abastecendo mais de 12 mil drogarias independentes, mas passou a ter, também, um “cliente cativo” de grande porte – a própria D1000 – que dá previsibilidade de volumes e ajuda a suavizar oscilações regionais de demanda, tendo assinado um contrato de exclusividade com a Profarma.
A integração faz sentido econômico?
Em mercados maduros, como Estados Unidos e Alemanha, cadeias de farmácia muitas vezes pertencem (direta ou indiretamente) a distribuidores. O motivo é simples: a margem da distribuição isolada é apertada e dependente de escala; quando a empresa se conecta ao varejo, ela garante fluxo estável, dilui custos logísticos e descobre em tempo real quais produtos giram mais rápido.
Do outro lado, a rede de lojas reduz capital de giro porque pode funcionar com “estoque puxado” – o distribuidor entrega pequenas quantidades com alta frequência, evitando prateleiras cheias.
Resultado: menos ruptura de estoque e menos capital empatado. Esse efeito, embora difícil de enxergar no DRE, vira caixa na linha de variação de capital de giro – exatamente onde as varejistas de medicamentos sofrem quando crescem muito rápido.
Horizonte de crescimento
A D1000 traçou um plano audacioso: dobrar o número de lojas até 2028, concentrando-se em praças onde já é conhecida (Rio, DF e Centro‑Oeste) e evitando guerra de preços com gigantes nacionais em São Paulo.
O crescimento será majoritariamente orgânico, mas a companhia mantém radar para aquisições oportunísticas de bandeiras regionais. A expansão virá acompanhada de reformas de layout, implantação de programa de fidelidade unificado e laboratório de e‑commerce que, hoje, representa menos de 2 % das vendas, mas pode chegar a 8–10 % em cinco anos se repetir trajetórias vistas em RD e Pague Menos.
Do lado da Profarma, o gatilho não é abertura de CDs – que já dão conta do volume projetado – mas ganho de participação em segmentos de alto valor (medicamentos especiais, oncológicos, hospital supply) e vendas digitais para farmácias de bairro que ainda pedem por telefone.
O histórico do setor ajuda: desde 2003 o mercado de distribuição farmacêutica brasileiro cresceu a 16% ao ano (CAGR) desde 2003, sendo impulsionado, principalmente, por envelhecimento populacional, reajustes regulados pela CMED e formalização de farmácias independentes. A expectativa de mercado indica avanço real de 6–8 % ao ano, mesmo em cenários de PIB modesto, graças à natureza não discricionária dos remédios.
Barato ou caro?
Até agora, falei bastante de fatores qualitativos. No entanto, o quantitativo não vale de nada quando se trata de uma ação cara, então bora falar um pouco de Valor.
Dividi a modelagem em duas partes: Distribuição e Varejo.
O valor justo da vertical de Distribuição totalizou R$ 852 milhões. Toda a Profarma, hoje, vale R$ 913 milhões; ou seja, ao comprar Profarma, você leva quase de graça toda a participação no varejo. O mercado parece precificar a zero a participação da empresa.
Já para a D1000, o valor justo estimado é de R$ 513 milhões. Assim, considerando a participação em DMVF3, o valor justo consolidado da PFRM3 soma aproximadamente R$ 1,2 bilhão.
Abaixo, estão compilados os resultados com base nas cotações atuais de ambas as empresas.
A grande questão é: qual delas vale mais a pena? Isso dependerá do seu perfil de investidor e lembrando que aqui as informações são apenas para fins educacionais.
Evidentemente, a DMVF3 apresenta um potencial de valorização maior, mas também carrega risco intrínseco (setorial e operacional) mais elevado. A Profarma, por já ter se valorizado significativamente, oferece um upside menor, porém conta com uma operação mais madura e tem menor risco de execução.
Além disso, cabe citar que a D1000 atravessa um momento operacional pior do que o da Profarma, com várias estratégias ainda em fase de maturação.
A duration do investimento também é mais longo, já que a maior parte do valor da companhia se concentra no longo prazo, em função da expansão orgânica e do ganho gradual de margem
Sobre o Autor
Pedro Henrique Accorsi é Analista de Investimento em Ações e Diretor B2C na Benndorf Research. Ele também é empreendedor, fundador e proprietário da Accorsi Investing, uma empresa que fornece serviços de investimento, mentorias e palestras. Além disso, atua como investidor autônomo com foco em Small Caps, com uma carteira com rentabilidade superior a 500% desde 2020.
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