A Ambev foi direta ao ponto na divulgação dos resultados do 4T25: para a gigante das bebidas, o impacto dos medicamentos GLP-1 — como Ozempic e Wegovy — no consumo de cerveja ainda é um “fantasma” que não apareceu nos balanços. A afirmação, no entanto, não encerra o debate. Enquanto a diretoria foca no clima, analistas tentam decifrar se estamos diante de uma mudança estrutural de hábito ou apenas de um ruído passageiro.

Para o CEO Carlos Lisboa, a queda nos volumes em 2025 tem uma explicação muito mais “pé no chão” do que as novas terapias de emagrecimento: o clima. O executivo atribuiu o desempenho fraco à atuação do La Niña e a um inverno que teimou em não acabar, esvaziando as mesas de bar e reduzindo as ocasiões de consumo fora de casa. “Não vimos alteração estrutural na demanda, mas sim uma menor frequência de momentos propícios ao consumo”, resumiu.

A tese da companhia é que, no Brasil, o uso desses medicamentos ainda não tem escala para mover o ponteiro do setor. Mas o mercado olha para o lado. Nos Estados Unidos, onde o acesso é maior, estudos iniciais já sugerem uma redução marginal no consumo de álcool entre usuários recorrentes. É um sinal de alerta que a Ambev tenta antecipar não com negação, mas com portfólio.
A estratégia para blindar a operação passa pela diversificação. Se o consumidor está mais atento à balança ou sob tratamento, a Ambev quer que ele continue com uma lata na mão — desde que seja uma Michelob Ultra ou uma cerveja zero. O segmento de zero álcool, aliás, saltou 30% no período, mostrando que o caminho da “escolha equilibrada” já é uma realidade lucrativa.

Além disso, há a cartada da premiumização. A lógica é simples e já testada pela matriz AB InBev: se o volume cair, a margem tem que subir. Ao focar em rótulos mais caros e marcas aspiracionais, a empresa tenta compensar a possível queda na frequência de consumo com um ticket médio mais alto.
Analistas, porém, mantêm um pé atrás. “A premiumização protege as margens no curto prazo, mas não neutraliza totalmente uma mudança estrutural se as pessoas pararem de ir ao bar com a mesma frequência”, aponta um gestor do setor.
O teste real virá em 2026. Com a Copa do Mundo no horizonte e um calendário generoso em feriados, a Ambev aposta que a tradição da socialização latino-americana falará mais alto que qualquer inibidor de apetite. Por enquanto, o discurso é de confiança absoluta, mas o mercado continuará monitorando cada gole — ou a falta dele — nos próximos trimestres.
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