Duas centenas e meia de vantagem institucional — e uma conta que começa a pesar.
Em 4 de julho deste ano, os Estados Unidos completam 250 anos como nação independente. Naquele momento, as treze colônias somavam menos de três milhões de habitantes e tinham declarado guerra contra o império mais poderoso do mundo, sem exército profissional, tesouro ou governo central de fato. Poucos dos cinquenta e seis signatários previriam que daquele documento de oito páginas nasceria a república mais duradoura da história moderna.
Em 250 anos, treze colônias agrárias subordinadas à coroa britânica se transformaram na maior economia do planeta, no centro dos mercados de capitais globais, no polo da inovação tecnológica e no emissor da moeda que organiza o comércio mundial. Nenhuma outra nação se aproxima dessa combinação, e nenhuma parece prestes a fazê-lo.
A explicação está, em boa parte, nos fundamentos institucionais que os próprios fundadores desenharam. Para entendê-los, é preciso voltar a 1787.
Naquele ano, treze estados recém-independentes viam o arranjo confederativo ruir. Cada um emitia sua moeda e taxava o vizinho, e o governo central não honrava nem as dívidas da independência. Cinquenta e cinco delegados foram à Filadélfia para consertar a Confederação e saíram com uma Constituição inteiramente nova, redigida em segredo.
O documento que produziram é, qualquer que tenha sido sua inspiração, uma peça de engenharia. Niall Ferguson, historiador escocês e estudioso da fundação americana, propõe uma metáfora útil. A Constituição é o sistema operacional dos Estados Unidos. Não decide o que cada governo fará, apenas define as regras dentro das quais tudo o mais acontece. Cabe em cerca de quatro mil e quinhentas palavras — a constituição funcional mais curta do mundo, não por displicência, mas por desenho. O economista John Cochrane, de Stanford, vai na mesma linha. Não é um documento visionário, é um documento de maquinaria, que define como o poder se distribui e com que freios.
A distinção importa. Direitos positivos exigem ação do Estado — prover saúde, educação, moradia. Direitos negativos exigem o contrário, que o Estado não interfira na vida dos cidadãos. Constituições visionárias prometem direitos positivos; constituições de maquinaria garantem direitos negativos e limitam o poder. A americana é radicalmente do segundo tipo. Madison, seu principal autor intelectual, foi explícito no Federalist 51. O sistema partiu do pressuposto de que políticos são falíveis, ambiciosos e autointeressados. Não desenharam uma máquina que dependesse de líderes virtuosos, e sim uma que funciona apesar deles. O objetivo não era econômico — a máquina foi desenhada para impedir um tipo específico de tirania, a do Estado sobre os cidadãos. O dinamismo econômico que veio depois foi consequência não-planejada, e talvez a parte mais interessante da história americana.
A diferença não é abstrata. A vida média de uma constituição no mundo, segundo a Universidade de Chicago, é de cerca de 17 anos; a francesa foi reescrita umas 15 vezes desde 1789. A americana, com apenas 27 emendas, é a mesma desde 1787 — não porque o texto tenha força própria, mas porque cada geração escolheu honrá-lo. Madison advertia que limites apenas no papel são barreiras de pergaminho, incapazes de conter sozinhas quem tem poder e vontade de rompê-las.
A engenharia constitucional produziu, sem se propor a isso, três condições decisivas. A primeira é a previsibilidade. O Bill of Rights, de 1791, enumera o que o governo não pode fazer, não o que ele deve prover. Não pode restringir a liberdade de expressão, legislar sobre religião ou confiscar propriedade sem compensação. A lei existe para limitar o poder estatal sobre o indivíduo, não para entregar bens aos cidadãos. Em um sistema assim, o capital de longo prazo encontra solo fértil, porque o investidor sabe com razoável confiança qual será o ambiente regulatório e tributário daqui a vinte ou trinta anos.
O contraste é instrutivo. Uma Constituição de direitos positivos compromete o Estado a entregar — saúde, educação, moradia, renda — e isso custa, ano após ano. Para honrar as promessas, o governo arrecada mais ou se endivida; quando as obrigações superam por muito tempo a arrecadação, a dívida caminha para o insustentável. O capital lê esse ambiente de duas formas, ambas adversas. De um lado, o medo de impostos maiores amanhã; de outro, juros mais altos hoje, quando um Estado que toma muito emprestado disputa a poupança com o setor privado e encarece o capital — o chamado crowding out.
A segunda condição é cultural. O Iluminismo Escocês ofereceu àquela geração não um ideal, mas um método. De Hume vinha a premissa de desenhar instituições supondo o pior do homem — não para anjos, mas para indivíduos movidos a interesse próprio, a lógica da qual nasceria o Federalist 51. Os fundadores eram historiadores aplicados. Estudaram por que as repúblicas anteriores ruíram e desenharam a sua para escapar desse destino. Onde o Iluminismo francês, racionalista e utópico, inspirou repúblicas refeitas a cada geração, o escocês, empírico e cético, produziu uma máquina feita para durar.
A terceira condição, a mais subestimada, é a tolerância ao fracasso. Desde cedo o sistema americano tratou a falência empresarial não como estigma, mas como mecanismo de realocação produtiva — o Chapter 11, que permite reorganizar empresas em vez de liquidá-las, tem raízes no século XIX. Schumpeter chamaria isso de destruição criativa, o motor pelo qual empresas obsoletas cedem lugar a outras mais produtivas. Nenhuma economia progride sem aceitar a parte destrutiva. Onde fracassar é cicatriz permanente, poucos tentam; onde é parte do processo, muitos tentam. Os Estados Unidos escolheram o segundo caminho.
A consequência cumulativa é difícil de superdimensionar. O Mississippi, o estado mais pobre do país, supera hoje em PIB per capita Reino Unido, França, Itália e Espanha, e quase empata com a Alemanha. Não é a média americana — é o pior estado; a média é quase o dobro disso. A Europa, por contraste, parou de acompanhar, e não por acaso: o modelo construído sobre uma camada robusta de direitos positivos financia seu welfare state com carga tributária que comprime o dinamismo privado. Os mercados de capitais contam a mesma história. As empresas americanas em bolsa valem hoje perto da metade do mercado global — mais que China, Japão e Índia somados. Sete companhias, as Magnificent Seven, com a SpaceX, valem cerca de metade a mais que toda a bolsa europeia. O dólar ainda responde pela maior parte das reservas dos bancos centrais, em queda gradual mas sem rival capaz de substituí-lo.
Para o investidor de longo prazo, o número mais eloquente talvez seja o do S&P 500 desde 1926, com retorno real de 7% ao ano ao longo de quase um século. Em janelas de vinte anos ou mais, o índice nunca perdeu dinheiro em termos nominais. Não há outro mercado no mundo com track record comparável.
A máquina americana segue sendo, de longe, a mais bem desenhada para acumular capital ao longo de gerações. O Brasil tem o seu próprio percurso institucional, que avança — o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal e a independência do Banco Central em 2021 são marcos relevantes. Mas é um percurso ainda em construção. As regras do jogo mudam com frequência, a previsibilidade tributária e regulatória é limitada mesmo a dez ou quinze anos, e fracassar empresarialmente carrega ônus que poucas economias maduras impõem.
Enquanto esse processo avança, faz sentido que o investidor brasileiro de longo prazo diversifique parte significativa do patrimônio para o ambiente institucional que os americanos vêm construindo desde 1787. Não é, necessariamente, falta de fé no Brasil. É a aplicação ao patrimônio de uma regra básica e saudável, a de não concentrar tudo num único regime institucional, sobretudo quando a alternativa apresenta claras vantagens. É, em algum sentido, trazer para o portfólio brasileiro o modelo que tornou o Mississippi mais rico que o Reino Unido.
Os números são impressionantes, mas há uma fragilidade estrutural se instalando por trás deles. Mesmo um sistema construído sobre direitos negativos acumulou, ao longo do século XX e deste, um conjunto de direitos positivos — o Social Security em 1935, o Medicare e o Medicaid em 1965, o Obamacare em 2010. Esses entitlements crescem em piloto automático, atrelados à demografia e aos custos médicos, sem revisão anual do Congresso. Greenspan repete há anos que a deterioração fiscal não vem dos gastos discricionários, mas da expansão desses programas — uma fração crescente do orçamento já comprometida por leis de décadas atrás. É isso, mais que qualquer coisa, que move as contas americanas numa rota alarmante.
Esse cenário traz um sinal específico, talvez o subtexto mais importante deste 4 de julho. Em 2025, Ferguson formulou pela Hoover Institution o que batizou de Ferguson’s Law. Quando uma grande potência passa a gastar mais com o serviço da dívida do que com defesa, tende a deixar de ser uma grande potência. O padrão se repete na Espanha dos Habsburgos, na França pré-1789 e no Império Britânico — cuja Crise de Suez, em 1956, expôs a impossibilidade fiscal de sustentar pretensões globais. Cruzar esse limite precedeu o declínio em todos os casos.
Em 2024, pela primeira vez desde 1934, os Estados Unidos cruzaram esse limite. Entre 1960 e 1990, os juros da dívida federal consumiam 1,8% do PIB, contra 6,4% da defesa; naquele ano, chegaram a 3,1%, superando os 3,0% gastos com defesa. O Congressional Budget Office projeta que, na próxima década, os juros podem chegar ao dobro do orçamento militar.
Há saídas em debate. A escola da produtividade, hoje turbinada pela aposta em inteligência artificial, propõe crescer mais que a dívida. A consolidação ortodoxa, de Greenspan e do FMI, propõe reformar entitlements e tributação. Ferguson aposta na via que historicamente prevaleceu — deixar a inflação corroer o valor real do passivo. Nenhuma é indolor, e a saída provável será uma combinação. Quanto mais se demora a reverter a trajetória, mais doloroso o ajuste. Como advertiu Burke, o contrato social verdadeiro é entre gerações — e a dívida pública é o consumo dos vivos às custas dos que ainda não nasceram.
Duzentos e cinquenta anos de sucesso não garantem outros duzentos e cinquenta. A máquina que funcionou tão bem até aqui exige vigilância — sobretudo no campo fiscal. Instituições não se sustentam no piloto automático, e Franklin sabia disso. Ao deixar a Convenção da Filadélfia, em 1787, foi abordado por uma senhora que queria saber que governo os delegados haviam criado. “Uma república, senhora”, respondeu, “se conseguirem mantê-la.” Não era modéstia. Ele duvidava que a máquina sobrevivesse, e entendia que a resposta dependeria menos do texto do que da disposição de cada geração de defendê-lo. Duzentos e cinquenta anos depois, a máquina permanece. O “se” de Franklin segue aberto.
Autor da Matéria:Tito Ávila da LIS Capital
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