Uma das mais tradicionais companhias de engenharia do Brasil, a Azevedo & Travassos, outrora mergulhada em um período de desafios e reestruturações, emerge para uma nova era, pavimentada por uma série de contratos vultosos que somam bilhões de reais. Longe do ceticismo que pairava sobre seu futuro anteriormente, a empresa demonstra um robusto reposicionamento estratégico, focando em setores cruciais como infraestrutura, saneamento e concessões, apontando para uma promissora recuperação e rentabilidade.
Os recentes anúncios, que incluem projetos de grande envergadura com a Petrobras, o Departamento de Estradas de Rodagem de Pernambuco (DER/PE), a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e uma inédita concessão rodoviária em Goiás, desenham um cenário de crescimento expressivo e diversificação para a companhia. Esses acordos não apenas impulsionam seu backlog (carteira de projetos) a patamares históricos, mas também solidificam a visão de um futuro mais estável e rentável.
O gigante do petróleo e gás: a retomada com a Petrobras
O grande destaque que sinaliza a retomada da Azevedo & Travassos no setor de óleo e gás é a vitória do consórcio liderado pela Heftos, sua controlada, em uma licitação bilionária da Petrobras para o Complexo Boaventura. Com uma proposta vencedora de R$ 1,761 bilhão, o contrato visa o fornecimento de bens e serviços para a construção da Unidade Geradora de Hidrogênio (UGH) do Gaslub. A Heftos participa com 80% do consórcio, ao lado da Construtora Colares Linhares, um pilar central na estratégia de crescimento da empresa.
Mas este acordo não é um caso isolado. Em janeiro, a Heftos já havia assinado um contrato de R$ 298 milhões com a estatal para prestação de serviços de manutenção industrial em plataformas na Bacia de Campos, com duração de 36 meses.
Gabriel Freire, CEO da Azevedo & Travassos, revelou que há a expectativa de um terceiro acordo com a Petrobras ser anunciado ainda este ano, o que faria o backlog da Azevedo & Travassos ultrapassar a impressionante marca de R$ 4,64 bilhões – um recorde histórico para a empresa.
A reestruturação da Heftos, que vinha impactando os resultados contábeis da Azevedo & Travassos com prejuízos de R$ 150 milhões em 2024 e R$ 13,5 milhões neste ano, começa a dar frutos. De uma prestadora de serviços de mão de obra, a Heftos se transformou em um player focado em contratos complexos de engenharia industrial, e a expectativa é que represente cerca de 60% da carteira de projetos da Azevedo & Travassos após o início desses contratos com a Petrobras.

Infraestrutura viária e saneamento: novas fronteiras de atuação
A diversificação é um pilar fundamental da estratégia de recuperação da Azevedo & Travassos. No setor de infraestrutura viária, sua controlada, Azevedo & Travassos Infraestrutura, foi habilitada como vencedora na licitação para a execução das obras do Arco Viário Metropolitano – Lote 2, em Pernambuco. Este contrato de R$ 631,9 milhões não só reforça a capacidade da companhia em grandes obras rodoviárias, mas também contribui significativamente para o robusto backlog de R$ 2,7 bilhões registrado no primeiro trimestre de 2025.

Paralelamente, o setor de saneamento, impulsionado pelo novo marco regulatório, tornou-se um foco estratégico. A empresa firmou um importante contrato de R$ 384,4 milhões com a Sabesp. Por meio de um consórcio no qual participa com 31%, a Azevedo & Travassos Infraestrutura executará serviços de engenharia para manutenção das redes de água e esgoto e reposição de pavimentos na Grande São Paulo, por um período de 780 dias. Este acordo não apenas solidifica sua posição em um segmento vital, mas também representa uma oportunidade significativa para a geração de receita nos próximos dois anos.

Rota Verde Goiás: o salto estratégico para o longo prazo e a receita recorrente
Talvez a mais representativa mudança de patamar da Azevedo & Travassos seja sua entrada definitiva no setor de concessões de infraestrutura com a Rota Verde Goiás. A empresa, por meio de um consórcio liderado pelo fundo Aviva, agora administra as rodovias BR-060 e BR-452 por 30 anos, com previsão de R$ 7 bilhões em investimentos para ampliação e melhorias.
Esta concessão, a primeira da empresa no setor, representa uma diversificação crucial do portfólio. Ela garante uma fonte de receita estável e de longo prazo, principalmente através da cobrança de pedágios, com uma estimativa de receita bruta de mais de R$ 14 bilhões e receita líquida de quase R$ 13 bilhões ao longo do período.
As rodovias BR-060 e BR-452 são rotas vitais para o agronegócio brasileiro, escoando grande parte da produção do Centro-Oeste, o que garante um tráfego comercial crescente e previsível para a concessionária. A entrada em concessões melhora a visibilidade para investidores, reduz a dependência de obras pontuais e pode ser um “cartão de visitas” para futuras licitações no setor, além de atrair parceiros e fundos de infraestrutura.

A virada operacional e a busca pela rentabilidade sustentável
Apesar dos prejuízos contábeis recentes, a diretoria projeta um retorno à rentabilidade com o início da execução desses novos contratos ainda este ano. A Azevedo & Travassos conta hoje com um pipeline de projetos que alcança R$ 25 bilhões, um indicativo do seu apetite por crescimento e da demanda em seus setores de atuação. A meta é ambiciosa: triplicar a receita de sua vertical de engenharia, passando de cerca de R$ 160 milhões em 2024 para R$ 500 milhões até o final de 2025, com uma margem de 15%.
Com a conclusão da mudança de controle acionário em janeiro, com os fundos Camaçari e Congem (ambos da Reag Investimentos) assumindo o comando, a Azevedo & Travassos demonstra estar preparada para capitalizar as oportunidades de mercado e transformar seu robusto backlog em resultados financeiros sólidos.
Os contratos estabelecidos não são apenas números em um balanço; eles são a materialização de uma estratégia de revitalização que busca recolocar a Azevedo & Travassos como um player relevante e lucrativo no cenário da engenharia e infraestrutura nacional, consolidando sua tão esperada “virada”.
*O autor é analista do Setor de Defesa e da Indústria Brasileira de Defesa, mas também é fascinado por turnarounds empresariais, como os que aconteceram na Taurus Armas, a partir de 2018, na Embraer, a partir de 2021, e que está acontecendo na Azevedo & Travassos desde o final de 2024.
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